30/8 - الدار البيضاء (Casablanca)
A primeira impressão ao chegar ao aeroporto é daquela práxis de terceiro mundo, tudo meio que ostensivamente policiado, em todo um lugar um guardinha de alguma qualquer coisa nos dirigindo aquela cordial cara fechada. O trem do aeroporto até a cidade, que devia ser climatizado, era simplesmente lotado, se movendo numa lerdeza que nem permitia a entrada de algum fluxo de ar pela janela. A cidade em si é indistinguível daquela região da Sé, Patriarca, em São Paulo. Com prédios construídos há uns 80 anos, meio mal cuidados, muito concreto, os ambulantes na rua, os edifícios públicos superlativos. Na cidade mais cosmopolita de Marrocos, 90% das mulheres usam véu. Tudo escrito, nesta ordem, em francês, árabe, em terceiro lugar uma outra língua estranha, com metade dos caracteres do alfabeto grego, e a outra metade uns símbolos desconhecidos, umas bolinhas que parecem saídas de um filme de ficção científica. Na média, um pessoal bem feinho, o que, no caso das mulheres, os diversos graus de burcas provavelmente tentam esconder.
O uso de cartões está longe de ser universal, a começar pelo próprio hotel, ao qual devíamos pagar a taxa municipal em espécie. Em função disto, saímos em busca de uma casa de câmbio em plena tarde de domingo.
Já passava então do meio da tarde, e acabamos decidindo tomar um ônibus para ir passear num shopping center num canto afastado de uma quase periferia do outro lado da cidade. A gente vem parar na África, e aí vai parar em shopping center em busca de algum lugar com ar condicionado... Lugar lotado, com aquelas mesmas lojas de sempre, as mesmas lanchonetes de sempre na praça de alimentação, tudo muito pouco digno de nota. Acabamos comendo uma tajine, sugerida pelo guia como um dos incontestes pratos da culinária local, mas que era apenas dois pedaços de frango rodeados por algumas azeitonas. Gostosinho, não o bastante para justificar o que o que custou. Mas a sobremesa foi Baskin' & Robbins. Sempre bom, com um beijo na pontinha do nariz ganho de minha envelhecida companheira de viagem Ana Paula, mas até deles já tomei sorvete melhor.
Anoiteceu umas 20:30. Estávamos longe demais de qualquer coisa que desse para alcançar a pé, então simplesmente desistimos e resolvemos tomar o ônibus de volta. Difícil adivinhar onde ele parava, já que não existia um ponto claro. Dentro dele, lotado em partes iguais senhorinhas vestindo seus shadors e de moleques suarentos e salgados que voltavam de seu dia de surfe, o som de tapões e murros na porta para que o motorista os deixasse descer era recorrente. Fora dele, os mesmos tapōes dados por outros mesmos meninos, estes tentando entrar no veículo. O Capão Redondo é um estado de espírito.
Mas conseguimos chegar ao centro, para mais 1,5 km de caminhada até o hotel, por ruas emanando aquele onipresente aroma de urina. Nas vendinhas de alimentos, aquela indigência. Nada interessante ou ao menos sem açúcar para fazer uma boquinha antes de dormir. E a geladeira do quarto não resfria nada, é apenas um armário com luzinha, como disse Ana Paula, enquanto puxava mais um cabelo branco sua têmpora.
Comentários
Postar um comentário