29/08 - Prólogo


Lá vou eu, tudo de novo. Para mais uma viagem que, nestes moldes, eu havia prometido a mim mesmo que não aconteceria mais. Como a do ano passado, aliás, e muito provavelmente como a do ano que vem, que também prometerei a mim mesmo não repetir, e que seguirei repetindo enquanto a coxa permanecer atarrachada ao quadril, o que não deve continuar por muito mais tempo, dadas as dores que cada vez mais sinto, e à minha tétrica ressonância mais recente.

Mais cinco maratonas em cinco semanas. Depois das cinco das férias passadas, eu havia dito a mim mesmo que daqui pra frente umas duas ou três por viagem já estavam de bom tamanho. Mas maratona é que nem brother na sauna gay. A gente adentra o recinto convicto de que vai ficar nuns três ou quatro, mas aí tem um outro lá alisando suas partes pudendas num cantinho, o outro passando o sabonete embaixo da ducha, e, quando a gente vai ver, já estourou mais uma vez a meta.


Não foi um ano fácil, mas que ano é, para quem tem olhos para enxergar e neurônios para pensar? Demitido a bem do serviço público daquela hospitalzinho de merda onde estive pendurado desde que terminei a residência, por seguir à risca as escalas publicadas pela ex-diretora calhorda, que conseguimos derrubar de lá, mas não com rapidez ou coragem suficiente para que não tivesse tempo para inventar sindicâncias nas quais, tal como um Simão Bacamarte com uma genitália bem mais fétida, todos naquele hospital eram responsáveis pelos malfeitos dela, menos a própria. Tendo ido para outro hospital onde recebo até mais, mas agora preciso de fato trabalhar, coisa meio inédita em minha carreira de funcionário público. E uberizado, pejotizado, dono agora de uma empresinha que descubro a cada 15 minutos que tem uma nova taxa ou imposto a pagar. 

Enredado em uma disputa por espólio por aquele animalzinho sarnento que o útero de minha periclitante mãe teve o desprazer de abrigar uns anos depois de minha passagem por lá. Se terem me trazido ao mundo foi um hediondo crime contra mim, terem repetido o erro com minha irmã foi um crime contra a humanidade, e agora venho viajar à sombra da iminência da notícia da próxima dificuldade que esta se empenhará em causar, como um Donald Trump envolto em mais banhas, que só consegue sentir que existe quando está incomodando ou assediando alguém.


Incauto que sou, como um estivador que vai freqüentar os becos do porto de Santos sem uma camisinha no bolso, deixei meus olhos brilharem pela possibilidade de finalmente correr uma das maratonas desta viagem, e acabei agendando para o início de setembro as férias que costumo tirar já avançado outubro adentro, sem me dar conta do calor que, ainda mais em ano de El Niño foderoso, acabei contratando. Ainda mais por causa de por onde minha aventura começa, vai ser punk, bicho. E sim, claro, tem a chuva. Para este ano comprei meias impermeáveis, mas que, por não o serem apenas unilateralmente, devem causar uma catinga de chulé inenarrável quando vestidas. 

Neste ano, a quantidade de hotéis com recepção é bem maior, para evitar as armadilhas daqueles lugares que não existem, ou nos quais não se consegue entrar. Mas tudo reservado pelo Booking mesmo, porque, não tem jeito, acaba sendo mais barato do que reservar na raça. E aquelas companhiazinhas aéreas baratinhas que, ademais, às vezes são as únicas que chegam aos rincões nos quais ainda me resta me meter. E a indefectível Flixbus, nos assentos da qual, já me aproximando da terceira idade, passarei duas noites desta viagem tentando dormir. Então aguardem más surpresas. A única certeza, além da de que o cabelo continuará caindo e o birigüi, amolecendo, é de que vai dar merda. Na verdade já deu, com um dos vôos cancelados semanas antes, e tudo o que fazem é devolver o dinheiro e foda-se. Consegui reservar outro, pelo dobro do preço e em horário um pouco pior, mas muitas outras oportunidades pra catástrofe ainda se apresentarão.

Pelo menos, este ano, depois de décadas de amor platônico e não correspondido, minha eterna e inconteste musa Ana Paula Arósio se apiedou de meu patético ser e resolveu passar o mês viajando ao meu lado, sob a expressa condição de que eu não espiasse pelo buraco da fechadura durante o seu banho. Muitas décadas se passaram deste que esta furiosa história de amor unidirecional começou, e os anos não foram generosos com Ana, como nossas fotos evidenciarão. Mas, rugas por rugas, ainda prefiro a companhia das dela às do meu saco. Que, a propósito, já uns bons três meses após a vasectomia, insiste em permanecer doendo mais do que dói a covardia de continuar existindo. Mas e quanto a mim, qual o tema da minha gracinha pra este ano? Já fiz meio de tudo nas últimas viagens: todas as fotos dando o dedo, ou enfiando o indicador no nariz, ou de costas mostrando a bunda, com boné MAGA, ou com chapéu de mago, bandanas de bandeiras dos países visitados, encarnando Bolsonaro. A vida, ao ir sendo vivida, vai comendo e esgotando os espaços de criatividade possíveis. Então este ano comprei a máscara primeiro e confiei que depois conseguiria inventar um discurso qualquer que a justificasse. Mas não consegui. Ē só uma máscara mesmo. 


É como eu sempre digo, meus amigos: a vida é dura. A piroca, nem sempre.

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