01/09 - الرباط (Rabat)


Ainda se passaram apenas três dias deste inferno térmico solar, e já estou com a pele de minhas costas e orelhas descolando da carcaça. As rugas da Ana Paula já começaram a sangrar nas regiões das dobras, e depois de mais uns dias disso pela frente, mais outras quase 5 horas embaixo do sol me aguardam para a minha primeira maratona. Obviamente, eu não trouxe protetor solar, e, mesmo que o tivesse trazido, ou o compre aqui, a perspectiva da sensação de melecância daquela merda muito pouco me agrada. Vamos ver, é questão em aberto. O problema é que, se e quando eu jogar a toalha, será porque já estarei queimado demais para fazer alguma diferença passá-lo, e será apenas mais um trambolho caro a ser carregado na mochila e confiscado no embarque no próximo avião. Os ardidos me lembram da minha segunda viagem para a Austrália, onde, a cada nascer de um novo dia, eu precisava me lambrecar inteiro com aquela gosma, passar o dia coberto pela meleca do amálgama formado pelo meu suor e o protetor solar, não raro ter dores de cabeça fodidas por causa do sol penetrando no meu cérebro através do couro cabeludo, e só me sentir limpo por alguma horinhas diariamente, à noite depois do banho, para então recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

Mas de volta a está viagem: tudo isto posto, o dia poderia ter sido pior. Teve até uma chovidinha frustra pela manhã, e passou boa parte da tarde com um nubladinho que vinha e voltava. Quando vinha, persistia aquela sensação de mormaço, mas o lombo ganhava algum descanso.
Rabat não chega a ser uma pérola, mas confirma aquela impressão de cidades menores que acabam se mostrando bem mais aconchegantes e agradáveis do que a capital ou cidade maior, do país. Várias porções da cidade nova bem bonitinhas, mesmo o centro velho bem menos porcão e mal cheiroso. Curiosamente, achei-a mais turística do que Casablanca, ou com seus dois ou três lugares dignos de ser visitados mais abarrotados de turistas, enquanto, na outra, era apenas o cotidiano e feio dia-a-dia de uma cidade grande de um país pobre, religioso, atrasado, machista e cheio de gente que urina na rua.

Coisas muito pouco interessantes para ver por aqui, afinal. Um bairro fortificado, com umas casas velhas e dezenas de lojinhas de comida e ímas de geladeira para turistas. O mausoléu de Mohamed V, e daí? Outra mesquita importante ao lado dele, na qual, desta vez, não consegui me passar por muçulmano e tive minha entrada barrada. Grande merda.

No país dos Dirhams marroquinos, com o uso de cartōes de banco ainda restrito, aquela batalha pra ficar dosando quanto dinheiro trocar, para não faltar nem sobrar. Decidimos então jantar não shawarma, numa lanchonete, como inicialmente pretendido, mas bobagens de supermercado, para não ter que gastar muito da grana do último câmbio. No final, trocando uma comida mais local, ainda que de lanchonete, por um pão meio seco e polenguinho, por causa destas dificuldades logísticas.
Pão que, aliás, deu trabalho sair de forno aberto, no corredor do supermercado, para dentro de um saquinho de papel, porque a única pessoa que aparentemente tinha autoridade para enfiar a mão ali dentro e puxá-lo passou uma meia hora desaparecida.
E o chuveiro do quarto é daquele de duchinha, e sem apoio na parede para fixá-la, o que equivale a praticamente tomar banho de canequinha. Mas pelo menos, por algumas horas, estou livre da catinga de suor. Com o ar condicionado ligado no talo, felizão embaixo do edredom! Amanhã o suplício recomeça.

Comentários

Postagens mais visitadas