05/09 - Ostrava

Motoqueiro é que nem crise de herpes, quando a gente menos espera, sempre aparece um pra encher o saco. No caminho do flixbus para Ostrava parou tudo por uma meia hora, segundo o Chat GPT por causa de um acidente grave com um motociclista uns quilômetros à frente, e teriam bloqueado a via para prestar socorro e permitir a descida do helicóptero de resgate. No final, passamos pela frente, era só uma colisão entre carros mesmo. Oportunidade perdida pelo universo de deixar mais um motoqueiro tetraplégico.

A cidade não é pequena, a segunda ou terceira maior da República Tcheca, mas bem fora da rota turística. Difícil encontrar alguém que fale inglês por aqui, poucos são os cardápios com legenda em inglês, mas pelo menos os aplicativos de tradução funcionam bem com a língua, sem dar os resultados bizarros e bisonhos que davam na China. O quarto do hotel fica no terceiro andar, sem elevador, vai ser dureza encarar as escadas amanhã depois da maratona. Não tem banheiro no quarto, mas é ali do ladinho, o que significa que devemos passar a madrugada escutando o barulho da descarga e talvez sentindo o cheiro da bosta dos outros. Ou não, porque o quarto tem mais cheiro de produto de limpeza do que o chiqueiro que foi a casa de meu papai bonzinho por um ano, quando a filha dele desovou lá um cachorro cagando em cima do sofá.

Depois de tanto ter me fartado na Lituânia, voltei hoje a saborear uns pelmenyis. São meio como o técnico que vem instalar a internet, coisa que a gente consegue comer uma vez a uns cada 20 anos. A sopa e o docinho também estavam gostosos, se não baratos.



A caminho da coleta do kit, descobrimos uma feira de café, com muita degustação de variedades coadas. Nenhum espresso de graça, mas café é que nem mulher, a gente encara o que estiver à mão. A diferença é que a dor pelo excesso de consumo acontece no estômago, não no aparelho reprodutor.


Ao contrário de algumas outras cidades em que já corri, nas quais a prova é vista como um evento importante, a mobilização aqui com a maratona parece ser zero. Tudo indica ser apenas um evento local, basicamente com gente da própria cidade correndo, e muito pouca representação internacional. Brasileiro, provavelmente só eu. No kit da corrida, uma camiseta maneira que prometi a mim mesmo usar durante a viagem, em vez de ser mais uma dentre as muitas que ficam encostadas lá no fundo da gaveta, como uma menina virgem apaixonara pela gente, que a gente não deflora pra não perder valor de mercado, mas também não desfruta, até que, quando finalmente cria coragem pra usar até desbeiçar, as traças já chegaram antes e fizeram a festa. Mas nada impresso, pouquíssima informação no site oficial da corrida, e o chatGPT delirando percursos certamente falsos. Espero não ser daquelas maratonas com 300 participantes e pouquíssima sinalização, nas quais meia hora depois de partir a gente não faz a menor ideia de se ainda está na rota, ou voltando a pé pro Marrocos. Já me aconteceu em Kassel e Helsingborg. Filhos da puta.

Para fechar a noite, o primeiro programa cultural da viagem, showzinho de rua, standards de jazz cantados em tcheco, com pouco público e banda tocando meio no automático, e eu sentado na sarjeta bem em cima de um bueiro, com o cachorro da moça ao lado me lambendo, mas ainda assim um bom achado.

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