06/09 - Ostrava
Há coisas pras quais a gente só dá valor quando não as tem. Como a piroca depois da cirurgia de redesignação de sexo. Ou aquele meu gurgelzinho fodido de merda que foi roubado. Ou correr. Não me incluo entre aqueles agraciados com a endorfina quando fazem atividade física e coisa e tal. Correr pra mim é sofrimento, endorfina é estar envolvido pelas pernas da Ana Paula, infelizmente agora já tão cheias de varizes e pelancas. Mas estava sentindo falta de correr. No fim de semana passado, em vez de meus 42 quilômetros completos, havia feito apenas minha corridinha de 20, por ter que embarcar para a viagem. Então finalmente chegou o momento de colocar as lesões em dia.
Depois de passar pelo Marrocos, a preocupação com a água de torneira ainda fazia algum eco. Será que a da República Tcheca era mesmo segura? Bebi, mas com aquele medinho de a conta chegar bem durante a corrida. Me preparando para sair do hotel, fiz três cocôs molinhos, não sabendo se eram o prenúncio do que se seguiria, ou só uma profecia que se autocumpria mesmo. Foi este último o caso, durante a prova não me senti assediado pelo meu peristaltismo intestinal em momento algum.
A corrida mais uma vez foi aquela espertezinha fuleira de fazer 4 voltas de um percurso menor. Se por um lado desaponta, por outro ajudou a reconhecer não me perder no percurso (que, sendo justo, estava bem demarcado), e, dado o tamanho da cidade, se fosse feito de uma volta só, nos empurraria para longe numa periferia rural ou alguma rodovia, não necessariamente interessantes.
Me ocorreu, enquanto o suor escorria pela minha testa, que um pelotão de corredores funciona um pouco como a equação de função de onda: aquilo começa tudo embolado, como foi o caso acho que nos primeiros 2 km, mas depois os corredores vão se dispersando, e a probabilidade de encontrar outro maratonista ao seu lado vai caindo com o tempo. Na quarta volta, a corrida já não tinha mais qualquer semelhança com uma prova. A cidade já funcionava normalmente, e de vez em quando, aqui e ali, passava um corredor solitário na frente de uma estação de hidratação fim de feira, oferecendo uns últimos copos de Coca-Cola quente.
Acho que um em cada quatro de meus colegas corredores se chamava Jan. De estrangeiros, vi três coreanos antes do início da prova, e passei algumas vezes por uma oriental, provavelmente japonesa. O pessoal dos 21 k me ultrapassava sem dificuldade, mas até segurei bem o ritmo em comparação com o bem menos numeroso pessoal dos 42 k, que, em sua maioria, no final da prova apenas caminhava rastejantemente em direção à chegada.
E os shortinhos das menininhas, infelizmente cobrindo a bunda daquelas que rapidamente me ultrapassavam e saíam do campo de visão e de cobiça, têm um corte interessante, com uma costura que se insinua rêgo acima, delineando bem as duas velozes nádegas.
O quadril aguentou bem. Restam outras 4 agressões a ele. No final, fechei em 4h52. Patético, mesmo de minha pretensão reajustada pela velhice, de fazer treinos de 4h40 para conseguir terminar as provas em 4h30. O tempo não perdoa ninguém. Que o digam os pé de galinha da Ana Paula.
Depois da corrida e de lavar todo aquele monte de roupas num box de banheiro saído diretamente da Estação Espacial, de tão minúsculo, ainda fomos até o portão do castelo de Ostrava, devidamente pago para entrar, e à Plato, galeria de arte contemporânea com uma política de pague o quanto quiser, de 1 a 300 coroas. A pegadinha é que era obrigatório pagar ao menos 1 coroa, coisa como 25 centavos de real, e eu realmente não tinha moedinhas tchecas no bolso, então viagens perdidas, com as pernas pesadas de pós-corrida.
Curioso como os tchecos são ciosos do dinheiro. Nas três vezes em que comemos em restaurante, tivemos aquele olhar de cu vindo dos garçons ao não incluirmos uma gorjeta na conta. Ou no caso da mocinha do museu, incapaz de distinguir entre o pagamento de uma coroa simbólica e a entrada gratuita.
Agora esta noite vai ser power, tendo que acordar às 2 e tanto da madrugada pra pegar um bonde à 3 e tanto, pra chegar a uma estação do outro lado da cidade às 4, para tomar um ônibus de volta ao aeroporto em Pyrzowice, de onde sai o vôo às 9:00. E se alguma coisa der merda nesta logística toda, vai foder legal, porque não há alternativas aqui meio neste cu de mundo.
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