07/09 - London

O pesadelo logístico para chegar a Londres deu e não deu certo, se considerarmos que o que se perdeu foi apenas dinheiro. Como um antigo supervisor meu dizia, "dinheiro a gente ganha de novo, vida não". Mas o cara era um narcisão meio abjeto, então, ad hominem, não dou muito valor a essa boa máxima, por ter vindo de quem veio.

Acordamos às 2:40, apesar do tempo que a Ana Paula levou para ajeitar o sutiã ao redor daqueles peitos murchos e caídos conseguimos sair às 3:00 para pegar o bonde, que de fato passou no horário exato. Faziam, quem diria 8º C! Depois dos 45 de Marrakech...Chegando num terminal rodoviário em frente a uma estação de trem, não sabíamos exatamente de qual plataforma o ônibus para o aeroporto sairia, ou se de lá mesmo ou dobrando o quarteirão. Os minutos passavam, nenhum ônibus aparecia, ia aumentando a dúvida sobre estar no lugar certo. O cu piscava tão alucinadamente que, se escapasse um pum naquele momento, ele seria fatiado em uma dúzia de micropeidos. Uma mocinha que aguardava uma qualquer coisa lá também nos orientou com provavelmente a única palavra em inglês que conhecia, "down, down", nos colocando a correr em direção à estação ferroviária, talvez o ponto não fosse mesmo lá. Quando estávamos prestes a sair do campo de visão daquele terminal, vimos o veículo da RegioJet que parecia estar se distânciando. Pronto, profecia cumprida, havíamos perdido aquela merda, agora perderíamos o vôo. Mas o motorista estava apenas fazendo um longo retorno, reaproximou-se do terminal, e conseguimos seguir viagem, com cãimbras anais devidas à piscância recente.

E então, depois de fazermos hora no lounge mais podreira com o qual já tive o desprazer de desperdiçar um crédito do meu cartão, chegou a hora do embarque em, sim, mais um vôo da Ryanair, e sim, deu ruim de novo! Desta vez implicaram com a bolsa de mão da Ana Paula, porque apenas uma peça era permitida, e já havia a infame mochila. Eu havia avisado, persistentemente, "vai dar merda, Ana Paula, você tem direito a apenas uma peça de bagagem, e pequenininha". Mas adianta alguma coisa? Eu falando e uma mula vomitando capim dão na mesma. A necessidade de andar com uma bolsa pendurada no pescoço, como aquele cobertorzinho de que o Linus não consegue desgrudar, é muito mais voraz do que a voz do bom senso. E lá se foram de novo mais uns 300 reais enfiados na bunda. Cabeção, Ana Paula. Cabeção!

De Stansted ainda tinham que morrer 15 libras no ônibus até Londres, depois metrô até o hotel (os cartões Wise finalmente funcionaram nas catracas, sem aquela coisa de permitir a entrada, não permitir a saída e depois ficar bloqueado, como aconteceu no ano passado com os cartöes de crédito convencionais). No caminho, passamos no museu V&A, uma ideia meio bisonha, de contar do ser humano por meio dos objetos que produz. Raros objetos interessantes, mas arquitetura do local muito bacana.

Ostrava não tinha nem sopro de walking tour, Londres tem dúzias. Marcamos uma sobre Brixton. O hotel só permitia entrada às 15:00, condição cumprida britanicamente. O que nos deixou, depois de mais uns 15 minutos perdidos com a bexiga preguiçosa por envelhecimento da Ana Paula, apenas uma hora e quinze para percorrer 5 km e ainda almoçar no meio do caminho.
Almoçamos num buffet de comida chinesa de £ 9,95, uma instituição londrina, com aquela não mais de uma dúzia de pratos absolutamente genéricos e medíocres, tema e varições sobre frango, em frituras e sob diferentes molhos. Comemos feito patos tuberculosos, engolindo furiosamente a comida, para dar tempo de chegar não muito atrasados naquela merda, e aquela merda tinha apenas um casal, como ocorrido em Marrakech. Até por já termos perdido a caminhada anterior, respirei fundo, bati no peito e propus à Ana Paula, que ajustava seu aparelho de surdez, que fôssemos mesmo assim, só precisaríamos te mais talento para conseguir fugir deste microgrupo, e de mais estômago para conseguir olhar no espelho depois. Minha velha Ana, que foi criada em escola de freiras, e no teste do sofá da Globo, se opôs, com argumentos carolas como ser este o trabalho da moça e ser justo pagar por ele, e colecionar karma ruim roubar aquele trabalho, e a possibilidade de ela perceber a fuga e vir correndo atrâs de nós cobrando satisfação e o dinheiro. Depois de mais uns 20 minutos debatendo filosoficamente a questão em frente uma loja de perfumes que jorrava para fora aqueles aromas causadores de cefaléia, a alguns metros da guia e do casal que seguia aguardando nossa chegada, desistimos. 5 km de corrida de uma refeição bosta tornada ainda mais bosta pela velocidade com que foi consumida, para nos deixarmos consumir pela culpa prospectiva pela molecagem e abrir mão da caminhada.

Fechamos o dia com outra instituição em minhas viagens: o musical! Este ano estava fraco, nada muito imperdível em cartaz, então para amanhã comprei algo de que suspeito de que vou gostar e, para hoje, algo sobre o que não fazia absolutamente qualquer ideia sobre de que ser tratava, um musical baseado em um mangá, Death Note, parece que de boa reputação, mas coisa que não leio. Pelo menos estaria de corpo presente no Barbican, palco de alguns shows do Tangerine Dream, onde portanto meus ouvidos tantas vezes já haviam estado. Provavelmente por não esperar nada do musical, além daquela boa qualidade técnica deste tipo de montagem na cena teatral de uma cidade com tradição neste campo, gostei! Sem ser uma superpodução exorbitando efeitos especiais, tinha um bom argumentos, cançōes gostosinhas, foi um bom fechamento de um dia subaproveitado em Londres, onde, ao contrário do Marrocos, não faltam coisas para fazer.

De volta ao hotel, cujo quarto é um microcubículo com apenas um beliche, quase com as dimensões acondroplásicas daquele que tive de encarar em Hong Kong, mas com uma banheiro com pia e chuveiro privados (mas não privada!), a grande supresa: neste tipo de lugar a dificuldade costuma ser conseguir que a âgua esquente, ou permaneça quente após 5 minutos. Aqui, estava tão incorrigívelmente escaldante que era inpossível entrar embaixo dela. Antes de que o vapor exalado por esta ebulição acionasse os detectores de fumaça, fomos obrigados a ir usar os chuveiros comuns e cheios de micose do corredor. 

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