08/09 - London

E pronto, hoje Londres resolveu ser Londres. Após um dia menos frio do que desejável ontem, mas sem uma gota de chuva, hoje já acordamos embaixo d'água, e o dia assim permaneceu até umas 4 da tarde. Tendo desta vez trazido as proverbiais meias impermeáveis e uma boa capa de chuva, a situação permaneceu administrável, mas ainda assim muito longe de agradável ou sequer confortável. 

A meia realmente não permite que a água ultrapasse para os pés, mas não impede a sensação de umidade, é como se os pés estivessem transando com camisinha com o tênis. Aliás, transar com camisinha devia ser como calçar estas meias, porque, aí sim, daria para sentir o molhadinho com toda a profundeza de detalhe.

Tīnhamos programado museus para a manhã, almoço tardio, outra walking tour no fim da tarde, na qual, com ou sem pouca gente, auspiciosamente Ana Paula aceitaria abrir mão de dar piti só porque acha que se consumimos  alguma coisa devemos pagar por ela, e depois o inevitável teatro. No chuvoso caminho entre um divertido museu do Bank of London e um desapontador museuzinho da St. Bart's Infirmary, descobrimos sem querer, por passar pela frente, a galeria de arte do Guildhall, com direito a tour guiada por uma daquelas donas de casa que fazem aquele curso de História da Arte para passar o tempo e sublimar o tesão não-consumado que sentem pelo síndico. Decidimos que já havíamos tido nossa cota de visitas guiadas por hoje, e que a caminhada, que provavelmente por causa da chuva teria também apenas uma ou duas pessoas presentes, podia ser deixada pra lá.

Fomos então, ainda embaixo de chuva, para uma feira de comida internacional, para descobrir que aquilo era três barraquinhas no pátio de uma igreja, e que já estava fechando. Mais uma vez sacaneados pelo otimismo, quando não mero delírio, do ChatGPT. Decidimos então comer num restaurante tailandês ali por perto. Caro, mas saboroso. Já eram 4 e pouco da tarde e finalmente havia parado de chover. 

Dava tempo para uma passada na Wellcome Gallery, o lugar mais interessante visitado no dia. Ainda sonado devido ao pouco descanso na madrugada retrasada, por causa da vinda de Ostrava pra cá, eu aproveitava qualquer oportunidade de entrar numa daquelas salas exibindo algum vídeo no escurinho para dar uma encostada e tirar um microcochilinho, para ver se tirava a zica. Com isto, mal havíamos acabado de ver a primeira de uma meia dúzia de exposições, e já eram 6 da tarde, quando fomos enxotados lá de dentro pelos seguranças.
Passamos pela Outernet, que é como MacFish ou a ex-vizinha do 43, sempre vale a pena ser revisitada quando se tem a oportunidade, mas que hoje estava bem chatinha, simplesmente exibindo telas de videogames que estariam sendo jogados em tempo real.

Era hora então do teatro desta noite, Tao of Glass. Mais uma coisa que acabei comprando devido a uma temporada bem pouco brilhante de musicais interessantes em cartaz. Mas, enfim era anunciada como uma experiência multimídia com fantoches, com música do Philip Glass, não teria como ser desinteressante, não? Eu já havia perdido, por questão de um dia ou dois de desarranjo com datas, uma apresentação de The Fall of the House of Usher, se não me engano na Espanha, então devia aproveitar a oportunidade!

Na revista de segurança na entrada do teatro, o imbecilzinho resolveu sequestrar nossas máscaras, sem sequer conseguir justificar por que, apenas dizendo que era uma coisa inusual, as pessoas não costumavam vir ao teatro com perigosíssimas máscaras de látex em suas bolsas. Foram devolvidas no final, mas poderiam ter se extraviado nesta palhaçada. 

Quanto à peça? Bom era exatamente isto, uma peça. Um monólogo, não especificamente fascinante, com o auxílio de três titereiros manipulando um boneco e outra figura construída com folhas de papel, e uma bandinha de 4 pessoas tocando uma música não especificamente inspirada, que mais competia com as falas do cara do que as ressaltava.
Tenho uma teoria de que há coisa de um quarto de século o grande, enorme, Philip Glass foi sequestrado, ou assassinado, e substituído por um clone de inteligência artificial que segue compondo música formalmente parecida com a dele, mas genérica, inercial, sem o menor vestígio do brilho que já teve um dia. A de hoje não foi exceção. 
Enfim, uma peça bem mais ou menos, contraponto à boa surpresa de ontem, da qual eu não esperava nada.

Os dois últimos dias renderam pouco, em se tratando de Londres, mas mesmo assim foram pauleira. Não comi dumplings em Chinatown, não voltei àquela Camden reformada do ano passado, não deu tempo nem de abrir o tablet, indo dormir à 1 da madrugada todo dia, o blog sendo feito atrasado e meio na correria...
Pra amanhã tem mais pouco sono de novo, acordo 4:40 pra chegar no próximo aeroporto...

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