11/09 - București.
Achei que seria sofrido ter que esperar até às 0:30, quando ele saía, mas tem tanta coisa pra ficar correndo atrás nesta viagem que acabei nem tendo tempo para ler sobre Bucareste e planejar melhor o dia seguinte, e, quando fomos ver, já estávamos embarcados. Só a contínua administração da logística pra não deixar acabar a bateria dos celulares já consome uma enormidade do espaço mental.
A noite foi aquele show de horrores, do qual nem posso dizer que não me lembrava: um pinga-pinga constante, com paradas para o xixi em postos de gasolina, em cidades ao longo do caminho para pegar e deixar passageiros, controle de passaporte na saída, controle de passaporte na chegada, passageiro de trás reclamando se o banco era reclinado, luz no interior do veículo que não apagava, solavancos e freadas dadas pelo motorista, e, claro, aquela anatomia dos assentos e paredes que tornava inviável encontrar qualquer posição estável para um mínimo de sono.
Com minha bisonha técnica, parida pelo desepero, porque como já sabia bem Frank Zappa, a necessidade é a mãe da invenção, de amarrar a testa com o agasalho na poltrona, consegui dormir por alguns minutos. Ana Paula, cujo cérebro envelhecido tem menos necessidade de sono, não dormiu nada.
Às 4:30 da madrugada, e não às 6 e pouco, como previsto, já estávamos com um motorista berrando malcriadamente que era para sair do ônibus, já havíamos chegado a Bucareste. Numa estação lá lonjão na periferia, não sei que prazer a Flixbus tem em escolher estes locais, como as Ryanairs e Easyjets escolhem os Lutons e Stansteads, será que existe uma falta de slots nas rodoviárias centrais?
Teríamos que tomar um ônibus para chegar à estação de trem de onde, à tarde iríamos para o aeroporto. Que o chatGPT disse categoricamente que aceitaria pagamento com cartão, mas recusou. Não que, àquela hora, qualquer outro passageiro estivesse tentando pagar, por medo de que algum fiscal estivesse acordado, já trabalhando. Viajamos de graça, então. Até sua chegada, Ana Paula, com seu semblante já carrcomido pelo passar dos anos ainda mais detonado pela curta noite passada em branco, dormia ali ao lado de um indigente, comprovando que o caminho para a total degradação da dignidade humana é uma ladeira íngreme, e, quando chegamos o fundo do poço, encontramos lá um alçapão.
Na estação do trem, após debarternos acaloradamente a possibilidade de acabar alugando um quarto de hotel ali do lado, para tomar um banho e zerar a catinga crescente catinga em nossos sovacos, dar uma cochiladinha que certamente se entenderia até às 11 da manhã e nos deixaria sem tempo para nada e teria tornado inútil todo este sacrifício para economizar um pouquinho de tempo e grana, fomos bater perna. Orientados apenas por uma breve pesquisa no chatGPT, porque, como eu disse, náo tinha dado tempo de ler melhor sobre a cidade.
Bucareste fez pouco para mudar minha primeira impressão sobre ela, quase duas décadas atrás, quando a achei feia, suja, enorme, malconservada, meio despropositada, de uma monumentalidade esvaziada, ao passo que Brașov foi um primor de bonitinha e memorável. Continua sendo tudo isto, mas melhorou um pouco, com o desempobrecimento se comparada a tempos passados, com mais lojas e restaurantes abertos, clima um pouco mais turístico. O calor e o sol ardido na cabeça tiram a graça deste mero caminhar a esmo..
Fizemos pouco além de flanar um tanto pela cidade, sem noção muito clara da geografia que estávamos percorrendo. Mas encontramos uma semifinal de um concurso de violinistas em um dos colossais anfiteatros deles, durante o qual, fundamentalmente, claro, cochilamos o tempo todo.
Ana Paula, com suas cordas vocais envelhecidas pelo passar dos anos, deu um roncão que fez com que acordasse a si mesma, que o violinista desse um pulo para trás e errasse a noita, e provavelmente causou um transtorno de estresse pós-traumático no sujeito sentido à nossa frente, que havia sido tão simpático nos contando sobre o local e um pouco da história da Romênia antes de a apresentação começar. Músicas de Enescu, compositor que eu não conhecia, mas, tanto quanto consegui estar acordado para escutar, achei interessante.
O trem para o aeroporto, quente e lotado, atrasou para sair, o avião era quase um teco-teco, daqueles com hélices à mostra, mas às 20:00 já havíamos chegado aqui, prontos para sermos acometidos por mais desgraças.
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