12/09 - Chișinău

Moldávia! A fronteira final! O limite a partir do qual eu achava que já ficaria muito esquisito viajar ex-repúblicas soviéticas adentro, ainda que há já uns muitos anos eu já tenha ido para a Rússia, com direito a todos os aborrecimentos e saias justas acarretadas por ter ido parar num lugar longe demais.
Há uns dois anos eu já vinha namorando a maratona de Chisinau. Neste, quando mais uma vez esgotaram cedo demais as vagas para a corrida do lago Ness, decidi que este era o momento. Desgraçada decisão, porque a corrida acontece amanhã, ainda bem longe de uma temperatura confortável, muito menos prazerosa. E duplamente desgraçada, porque decidi além disto sequer começar a viagem por aqui, mas ainda enfiar antes duas semanas de lugares quentinhos como o Marrocos. Cabeção, Aderbal. Vai ver que desejava inconscientemente que o calor derretesse as estrias e lesões pré-malignas na tez de Ana Paula, e a fizesse voltar a se parecer com aquela pós-adolescente que fazia comerciais de modess, ou algo assim, até que me conheceu e resolveu jogar tudo para cima para ser em tempo integral meu objeto de desejo e lascívia.

Bom, enfim, Moldávia.
Mais um país fora da zona do Euro pra encher o saco. A cotação estava ruim no aeroporto, então resolvi deixar para trocar na cidade, e pagar o bonde que ligava os doiscom cartão, porque, adivinhem, o chatGPT confirmou com certeza duas vezes que havia maquininha de pagamento dentro dele. E, adivinhem... Sim, estávamos presosr dentro do veículo, que percorria uma grande faixa de nada entre dois lugares que teriam casa de câmbio, mas não lá, com um velhinho meio antipático relinchando em romeno a exigência pelo dinheiro da passagem. Depois se afastou e foi cobrar dos outros, achei que havia compreendido a situação e deixado barato, mas algum tempo depois se reaproximou, com a mesma postura intransigente.
E eis que naquela situação aparentemente sem solução uma solução se materializa. Uma mulher ao nosso lado se dispõe a pagar nossas passagens! 7 lei, nem dois reais, por pessoa, não era grande coisa, mas o gesto de generosidade foi uma das coisas que levarei enternecidamente desta viagem. Tinha 5 euros no bolso, tentei dar a ela como supervalorizadíssima compensação, mas está apenas sorriu e recusou. Valeu, tia! Karma bom! Na próxima encarnação, como uma barata cascuda você não volta!

Moldávia ainda é meio uma Albânia de pobreza. Também aqui já existem as lojas e restaurantes caros, mas na média é tudo bem singelo, meio malcuidado, quando não ostensivamente abandonado, como uma Muzambinho com gente mais bonita e menos simpática. As rodoviárias, que usaremos um tanto nos próximos dias, são um caos de desorganização e improviso, e a comunicação em inglês com os locais médios,  impossível. Passamos horas naquela algaravia tentando decifrar como tudo funcionava, acho que temos uma chance honesta de que tudo aconteça a contento, mas é que nem tomar xenical, pode dar merda a qualquer momento.

A maratona aqui parece mais levada a sério, um quarteirão inteiro de rua já bloqueado bem no principal cruzamento da cidade, uma feira enorme com uma dúzia de patrocinadores, latinha de red bull na sacolinha do kit de corrida.
O caminho, em si, um desapontamento: 4 voltas de um grande retão, indo por uma mão da rua e voltando pelo outra, zero tentativa de contemplar um percurso mais variado ou cobrir uma porção maior da cidade. É como fechar ali da Dr. Arnaldo até a Domingos de Morais e fazer a gente ficar indo e voltando, voltando e indo.

A caminhada agendada para está manhã tinha apenas mais um interessado. Tomou bomba. A da tarde, marcada como plano B (havia também a plano C, que dois descartada), tinha lá sua dúzia de participantes, uma quantidade confortável para permitir aquela escapada conflituada e humilhada. Porque meu amigo João Sebastião não é o único que domina a arte da fuga. Mas foi pena, doeu mais do que o usual na consciência... A moça era boa, bem-informada atenta a seus tutelados (deve ter ficado um tempo procurando por nós até se dar conta do que, como bons brasileiros, havíamos feito), inusualmente politizada em suas críticas ao atual governo, aos separatistas, à estrutura social...
E também é acompanhada por sua cadela nas caminhadas, na maior parte do tempo sem coleira, então gente ruim nåo deve ser.

Como que para nos punir pela molecagem, deus mandou chuva. Da qual as capas plásticas nos protegeram razoavelmente, mas nada puderam fazer contra as poças e enxurradas d'água que correm pelas ruas irregulares do terceiro mundo. Com os pés encharcados, comemos uma não barata mas fantasticamente refeição chinesa na mais improvável cidade para encontrá-la.


Ah, e o papel higiėnico é super lixa! Aí!

Comentários

Postagens mais visitadas