14/03 - Iasi


Inspirado pelos ares de Iasi, aonde cheguei num bate-e-volta ainda maior do que as dimensões do meu epidídimo depois da vasectomia, resolvi tecer algumas considerações a respeito de geometria.


A cidade fica a mais de 3 horas e meia de Chisinau, mas a oportunidade que tinha de chegar a ela era agora. E, como não consegui acomodar um esquema de pernoite que permitisse um retorno confortável ao aeroporto no dia seguinte, o jeito foi sair de madrugadão e retornar a Chisinau tarde da noite, quase 8 horas dentro de um ônibus para ter a oportunidade de passar umas 10 horinhas na cidade. 
Ônibus é um terno exagerado. Na verdade, microônibus de 20 lugares, bem diferentes do que as ilustrações no site da companhia davam a entender. Dirigidos por motoristas com um vocabulário de umas 10 palavras em seu inglês. E, ainda assim, melhores do que enfrentaríamos no dia seguinte. Ao contrário da previsão do aplicativo (não é apenas o Chat GPT que diz basicamente o que lhe dá vontade), não choveu no caminho para a rodoviária e nem durante todo o dia na cidade. Chegamos a Iasi sob um belo dia de sol, e já nos dirigimos ao bairro universitário, em cujo prédio de uma das faculdades haveria uma biblioteca tão fotografável e instagramável quanto mal-sinalizada e difícil de encontrar, naquele labirinto de salinhas e anfiteatros que constituem um prédio de faculdade construído a um século e pouco.
Depois de muito caminhar a esmo, passamos pela terceira vez pela porta do que seria o lugar da coisa, com um vigia aparentemente um tanto malandro em sua frente, e que tentou nos cobrar 10 leu para entrarmos e fotografarmos. Toda a cara de um "por fora", como foi quando apareceram com umas cadeirinhas de armar colocadas no corredor de passagem do teatro do Odessa, quando tentaram nos vender a entrada em uma ópera com os ingressos já esgotados. 

De qualquer modo, enquanto procurávamos o salão, bateu aquela urgência miccional, que me levou a um banheiro do prédio da faculdade, até limpinho, mas sem papel higiénico ou assento na privada, e, principalmente, com esta charmosamente enfeitada com os resquícios de um barroso prévio. Motivado pelo fato de estar no Instituto de Tecnologia, ou algo assim, pus-me a calcular: a ausência do assento na privada faz com que o vivente escolha defecar meio assim agachadinho, para não encostar suas nádegas na louça fria e sabe-se lá recoberta pois quais patógenos e excreções. Isto faz com que a posição do orifício anal fique mais angulada em relação ao plano horizontal onde o assento deveria estar, e a jantada de fezes seja dirigida não para baixo, mas para a parede da louça, produzindo uma bela decoração que fica aguardando a apreciação do próximo usuário. Bem, como eu disse, considerações de natureza geométrica.

Do que conheço da Romênia até agora, Bucareste é aquela enormidade de feiúra e abandono, Cluj-Napoca e Timisoara são cidades menores, interessantes mas também um tanto degradadas, Brasov (pelo menos a de quase duas décadas atrás) é extremamente bonitinha e agradável, mas igualmente pobre e pouco pujante. Iasi é outra coisa: limpa, bem-cuidada, sem os prédios abandonados ou lentamente se desintegrando, com um shopping-center que cobre um bom décimo da superfície da cidade. Uma Romênia rica e primeiro-mundista pela qual eu não esperava.
E sim, cheia de igrejas, em sua maioria ortodoxas, uma por quarteirão. Passamos na frente ou entramos em tantas que só no dia seguinte fui me dar conta de que nem havíamos ido ver duas, mais relevantes, que deveriam ter constado no caminho de volta para a rodoviária.

Com a primorosa comunicação possível com os motoristas, acabamos entendendo que a passagem de volta custaria 150 lei romenos por cabeça, e não para os dois. Terminadas de ver aqueles montes de igrejas, decidimos antecipar a volta a Chisinau em uma hora, e ao entrar no site para reservar os assentos, o valor informado (às vezes em euro, às vezes em leu romeno, em outras em leu moldavo) a ser pago ao motorista era metade daquele. Tínhamos agora um monte de dinheiro romeno que precisava ser gasto ou trocado antes de sairmos do país. Trocar, nåo conseguimos, porque a menor denominação de notas que as casas de câmbio tinha de dólar para vender eram notas de 100. Então saímos comprando comida para os próximos dois dias, incluindo uma dúzia de latinhas de refrigerantes e energéticos que agora precisarão ser carregados no lombo até serem confiscadas no aeroporto, e uma segunda refeição no McDonald's, pouco tempo depois de termos almoçado pizza, tomado sorvete, café de rua....


No final, a van reagendada para às 19:30 acabou saindo apenas às 20:30 mesmo, porque, no shakespeariano vocabulário do motorista, houve "um problema". Também algo aconteceu na fronteira, que fez com que a van ficasse parada, e omotorista, desaparecido, por outra mais de meia hora.
Assim, acabamos retornando quase 1 da madrugada, para não conseguir entrar no quarto do hotel. No meio do caminho de ida, pela manhã, eu havia me dado conta de que não está a com a chave. O que poderia significar que a havíamos deixado em cima da mesa no quarto, ou talvez espetada na fechadura de fora. Já era muito tarde e muito distante para voltar, então seguimos em frente na raça, torcendo para, à noite, simplesmente encontrar a porta aberta e as mochilas e tablets ainda lá dentro. Mas não. Fechada. Depois de descer até a recepção, botar a menina com uma cara de bunda enorme de má vontade para procurar uma cópia sobressalente, ou sei lá o que estava procurando, busquei eu também pela vigésima-sétima vez em minha bolsinha de tiracolo, e finalmente a encontrei.

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