19/09 - Karlsruhe


Sem chuva hoje. Ainda com solidão hoje. Saí para acabar de flanar pelas cidade, deixando a mochila num armário no corredor do térreo do hotel, que funcionava como o depósito de bagagem, por conta e risco do freguês. Depois percebi que, apesar do código eletrônico na porta da frente, esta nem travava, e o prédio permanecia acessível a qualquer desconhecido. Dei meia volta e peguei o tablet para passear comigo. Mas a mochila, as roupas, permaneceram lá. Se alguém soubesse que meu calção de corrida estava lá dentro e resolvesse subtraí-lo, me causaria um problemão. O melhor cofre é a ignorância. 
Na volta a mochila ainda estava lá, conquanto retirada do armário por uma caterva de latino-americanos que achavam que tinham mais direito àquele espaço do que os outros. Fiz um esforço para por a mão no bolso e tirar a cabeça da pança para comer umas coisas que vinha vendo pela cidade: batata frita com molho de currywurst, rosquinhas recheadas, bolinhas de chocolate Lindt com sabores diferentes. 
Já a caminho da estação de trem, o e-sim fez como o Bolsonaro e deu uma fraquejada, me deixando sem internet por uns 10 minutos, não me permitindo ler notícias enquanto almoçava lá sozinho e em silêncio, ou verificar qual era a situação do flixtrain, que haviam notificado que estava atrasado uns 50 minutos. Me lembrei do sufoco maior passado no aeroporto de Istambul, e tentei rememorar como eu conseguia viajar em meus primórdios, sem celular, sem internet, no máximo com um mapa de papel, que nåo tinha ponteiro de GPS para ajudar a me localizar. 

Cheguei sem maior transtorno aos Ibis de Karlsruhe, se não o hotel mais simpático da viagem, o mais caro e suntuoso, e já saí correndo para o teatro, para mais eventos culturais gratuitos. O primeiro deles, com um grupo de nome promissor, ”Cantus Juvenus", nada mais era do que mais uma apresentação de um coralzão de criancinhas cantando Atirei o Pau no Gato. Segundo mico idêntico, em dois dias consecutivos. Depois, um sing along em que as anfitriãs projetavam pedaços de partituras de músicas que provavelmente a quase totalidade da platéia de basicamente velhinhas não sabia ler, e punham todos pra cantar. Tudo muito meio naquele clima de quermesse, o Chat GPT tem este jeito de descrever as coisas de um jeito que as torna maiores do que são.

Comi depois um kebab, ausente até o momento desta viagem, e voltei para tentar uma himenoplastia em minha pobre calça. Assim como toda boa himenoplastia, vamos ver quanto tempo isto dura até arregaçar tudo de novo.


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