21/09 - Maastricht


O dia começou mal, com o atraso do ônibus, que sairia às 6:15, mas saiu só às 7:00, o que só fui descobrir ao abrir o celular após já ter feito o check-out, e, com isto, perdi a oportunidade de dormir mais uma meia horinha. Poderia ter perdido a conexão com o segundo ônibus que me trouxe até aqui, mas deu, justinho. Atrás de mim, um sujeito com o celular em alto volume tocando algo que soava como a Haiti FM. Ao meu lado, outro de aroma, digamos assim, pungente. Nada mais direi.

Algumas coisas, a gente come uma vez na vida, como as pannacottas em Pristina. Outras, se tanto, uma vez por ano. McFish. Sorvete Ben & Jerry's. Lokum. Aquela contratinho que é lembrada de sua existência pelo Facebook no seu aniversário. Dr. Pepper. E hoje, finalmente, o motivo secreto pra eu ter enfiado Holanda nesta viagem, frikandel! Aqui não tem maquininha da Febo, mas dá pra entrar nas friteries e pedir pra fritarem na hora. Foi o almoço hoje, será o almoço amanhã, e depois sabe-se lá quando de novo. O curioso é que mesmo as experiências muito raras vão causando alguma tolerância. A sensação daquele recheio cremoso do frikandel derretendo na boca, aquele pedaço de carninha entrado no vão entre os dentes, são prazerosos, sem dúvida. Mas ao mesmo tempo ainda assim temperados por certa coloquialidade. Já estive aqui antes. Voltarei a estar algum dia.

À noite, mais dois eventos infladíssimos pela descrição do Chat GPT: Uma apresentação de músicas de cantores-compositores, realizada numa salinha do segundo andar de uma casa de shows, que exceto por uma entrada lateral, estava completamente fechada. Público de umas 10 pessoas, dois grupos tocando, provavelmente cada metade daquela platéia era de amigos ou parentes de membros de cada um dos grupos. E eu lá num canto, sozinho, sem entender uma palavra em holandês. Mas ganhei uma rosa de plástico do vocalista do segundo grupo, um rapaz, digamos assim, sensível, que, ao cantar uma música sobre flores, distribuiu algumas para as mulheres da minúscula audiência e, tomado por furiosa lascívia analmente piscante quando cruzamos olhares, para mim.
O segundo evento, noite de jazz na casa tal, era apenas um bar com um trio de músicos tentando tocar alguma coisa no meio daquela algazarra de gente já calibrada, falando muito alto, e, ali na boca do pequena palco, uma dúzia de pessoas se contorcendo, quase como que para mostrar para a coletividade que sabiam dançar. Até consegui me aproximar, escutei uma música e vim embora. Não exatamente o tipo de lugar muito agradável, com todo aquele apertamento e inebriação, se você não bebe e está ali sobrando, sozinho, com as mãos no bolso.

Ao chegar para meu merecido e volumosamente pago banho, nada de água quente no banheiro do andar. Procurei o carinha, que é também o fritador e balconista de uma lanchonete no térreo do prédio. Depois de afirmar o óbvio, que eu deveria ligar o chuveiro e esperar esquentar, e de constatar que este óbvio não acontecia, disse, em tom condescendente, "se você quer tomar banho, pode tomar aqui no chuveiro de baixo". Como se estivesse me fazendo um favor, e permitindo um capricho meu.

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