22/09 - Maastricht
Dia um pouco menos completamente autista hoje, seja pela mínima interação com outras pessoas na caminhada pela manhã, seja pela mínima conversa com um outro maratonista que também esperava por mais um ônibus atrasado no final da tarde. De resto, apenas caminhar meio mecanicamente de um ponto de interesse a outro, pois as coisas experimentadas fazem mais sentido quando compartilhadas, e não meramente vivenciadas solitariamente. Tenho sido remetido nestes últimos dias a algumas ocasiōes em que me vi sozinho em parques de diversão, simplesmente pulando de brinquedo para brinquedo, rodando em cada nova montanha russa sem nem mesmo me preocupar com sorrir, porque não havia ninguém ao meu lado mesmo, toda a experiência era a da sensação interna, e muito menos marcante nesta falta de interação e troca a respeito dela.
Mas, antes um bom achado, que também provavelmente teria sido melhor aproveitado se não limitado à solidão dos meus corpúsculos gustativos: a loja da Nespresso daqui, mais do que ter um cantinho de degustação, com uma ou duas variedades de cápsula sendo divulgadas, parece ser mais fundamentalmente um ponto de degustação, com, ao redor, os cafés que as pessoas podem querer comprar depois de tomar. Meio como a identidade secreta do Batman ser o Bruce Wayne, e não a identidade secreta do Bruce Wayne ser o Batman.
Na maioria das lojas em que já filei café, era aquela coisa meio envergonhadinha, tinha que fazer uma média com o vendedor, simular interesse em comprar o café que estava experimentando. Mais recentemente, parece que saiu de moda haver a desgustação nas lojas. Aqui é diferente: você experimenta o que quiser, o cara te esquenta leite e espuminha, coloca xarope de diferentes sabores na bebida, que não é aquela xicrinha ridícula da 50 ml, mas bem pode ser um capuccino preparado com capricho. E não vi aquela pressão velada pela compra de alguma coisa depois de te darem um cafezinho. Tomei uma bela xícara ontem, duas hoje, e que pena que acabou.
A caminhada de hoje descobri por acaso, nada havia encontrado ao procurar na internet, mas havia uma propaganda no balcão do hotel.
Cobravam € 2 pela reserva, então achei que poderia ser uma coisa mais oficial do município, que não precisasse ser remunerada. Ainda assim, resolvi me fazer de desentendido e baixar lá na hora, sem ter feito a reserva formal, e ver se dava pra ser encaixado. Deu. Grupo grande, sem dificuldade para aquela escapada clássica, como de fato fiz. Guia nos seus sessentinha, mas ainda deve bater uma boa bolinha, carne maturada de qualidade. Simpática, culta, mas ainda assim vivendo da gorjeta que lhe neguei, como em todas as outras oportunidades.
E ainda obtive na caminhada a informação que mudará para sempre minha vida: esta é a cidade do André Rieu! Paciėncia, nem todas podem ser a cidade natal do Roger Waters. E até o Rick, que deus o receba ao som de pagode lá no céu sertanejo, tem que ter nascido em algum lugar. Agora o Renner se junta com o Daniel e uma nova dupla, de viúvos, é formada!
Depois, mais um derradeiro frikandel, um tanto mais de deambulação solitária zumbi pela cidade, é uma hora de espera pelo ônibus atrasado. Engatei conversa com um rapaz turco que também o esperava, de uns atuais 40 anos, que me contou também ser maratonista, e já ter terminado uma corrida em 3h30. Não perguntei o tamanho da piroca dele para não correr o risco de ficar com duas invejas.
No trajeto do ônibus, ah, a dolorosa coincidência, uma parada em Düsseldorf, no caminho da qual passei a apenas meio quarteirão do Kling Klang Studio, meu local de mais sagrada peregrinação! Todo muçulmano deve ao menos uma vez na vida viajar a Meca! Todo apreciador de boa música deve ao menos uma vez na vida ir se ajoelhar e orar naqueles degraus do Kling Klang. hoje estive a meio quarteirão da oportunidade de pela segunda vez na vida ir beijar o chão do local onde o Kraftwerk nasceu e gravou seus clássicos! Pensei em usar aqueles 5 minutos da parada na estação para correr uns 4 quarteirões e ir lá passar a mão naquela maçaneta sagrada, mas o ônibus, provavelmente por causa do atraso, parou lá só um minutinho, teria sido trágico ter descido dele.
Hotel longinho da estação, mais de 2 km, mas vim, voltei, depois vim de novo, porque estava com vontade de comer ramen. Desta vez o Chat GPT acertou na indicação, uma praça de alimentação com umas barraquinhas muito sinistras, mano. Amanhå vou comer lá de novo.
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