23/09 - Essen



Belo dia hoje, meteorologicamente falando. Zero gota de chuva, um sol bonito, mas sem aquele ardido do começo da viagem, temperatura ainda menos baixa do que poderia, mas já suficiente para sustentar uma manga de camisa.
Passei quase metade do dia numa bela caminhada cênica, pela periferia e pelos bosques, para chegar lá lonjão no complexo desativado da carvoaria de tempos menos política e ecologicamente corretos. Sozinho, perdido entre meus silêncios e ruminações, relembrando daquela sensação das minhas primeiras viagens sozinho de vago desamparo, mesmo sem nada claramente ameaçando ou dando errado, saber que estava muito longe, fora da zona de conforto, em certo período da minha vida sem absolutamente qualquer outro ser humano sequer sabendo que eu estava viajando, que dizer para onde, de me dar conta de que provavelmente tudo continuaria bem, mas, se desse ruim, o repertório para lidar com a situação era bem limitado. Como pular de paraquedas, ou liberar descamisadamente o tubo digestivo distal para aquele sujeito de tez morena, deltóides pronunciados, modos rústicos e peito peludo lá no swing.


Para não falar dos aspectos também práticos desta precariedade. Nem me lembro tão bem em detalhes, mas envolvia ter apenas um guia de viagem em papel, pesando um quilo e carregado constantemente dentro da mochila, como referência, chegar a um aeroporto, tomar o ônibus indicado nele para o centro da cidade, depois de muito procurar onde ficava o ponto, passar o percurso todo defecando na cueca gotículas fecais em peidinhos de desespero torcendo para ser o veículo certo indo para o lugar certo, sem ter como verificar se estava sendo, chegando na cidade procurar o local de informação turística para conseguir um mapa de papel, e então ir atrás dos lugares indicados no guia, depois de ter tido um trabalhão para encontrá-los e marcá-los no mapa. Tantas foram as oportunidades de dar merda, olhando retrospectivamente, que surpreende quão poucas vezes tenha dado.
Deus protege os inconsequentes, para lhes dar um senso de relaxamento e poder lhes detonar selvagemente o esfíncter mais tarde, quando menos esperavam.





Da cidade em si, a impressão é de que  não vi tanto. Sua anatomia parece bem improvisada, com aqueles elevados e puxadinhos que foram sendo construídos de acordo com a necessidade, sem um projeto inicial. A apresentação da Sinfônica da cidade hoje, Sinfonia No. 3 de Bruckner, já estava esgotada fazia semanas. Não devo ter perdido grande coisa. Então, depois de confirmar a inexistência de ingressos, adicionar mais um episódio à minha decisão de me alimentar unicamente de ramen durante minha estadia em Essen, e visitar um museu com bastante arte contemporânea, já estava de volta ao hotel umas 7 da noite. 



Mas então, depois de ficar quebrando a cabeça para tentar modificar meus voos finais para não correr o risco de perder o segundo por atraso do primeiro, e ficar preso na Europa com plantão pra dar no dia seguinte e, por ter economizado uns 20 euros, ter que gastar 700 em uma outra passagem, e concluir que não há nada a fazer senão rezar, tomar banho, ir comprar uma batata frita ali na frente, ficar comendo com os olhos uma alemãzinha na mesa ao lado, assistir um pouco de seriado e escrever blog, já era uma da madrugada de novo.
Da HiSky, que me tirou da lista de passageiros do avião lá na Moldávia, nem suspiro de resposta ainda. E comprei uma água com sabor de romã que é nauseantemente ruim. E a himenoplastia da calça já foi pro espaço uma duas vezes. Aí, a cada vez que recosturo, tenho que puxar mais tecido, e aquela coisa vai ficando deformada, esticada, com pouco espaço para a genitália, mesmo que ela, dada sua humildade métrica, não ocupe um grande volume mesmo.


Ah, sim, e acréscimo àquela lista de coisas que faço uma vez por ano, ou menos: Dunkin' Donuts.


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