26/09 - Odense




Foi um dia que demorou pra começar. Até deu pra dar uma cochilada nas duas pernas da viagem até aqui, em ônibus não cheios, nos quais tive os dois assentos para mim, conquanto eles sejam projetados para, mesmo com o dobro de espaço disponível para as pernas, não haver posição confortável possível. Coisa ainda piorada pelos dois enormes furos na minha calça, que já estão virando uma única gigantesca cloaca de tanto serem costurados e arrebentarem de novo. E não queremos o saco aparecendo assim pra deus e mundo, né.... Mas, entre um ônibus e outro, três horas de espera num banco de metal na área externa da rodoviária de Hamburgo, que viraram 4 porque aquela merda atrasou mais uma hora, passando frio e com ventinho gelado entrando pelos bagos expostos. Acabei indo dar uma volta ali pelas redondezas, de mochilão nas costas, no meio da mais abjeta fauna noturna de migrantes africanos e do oriente médio embebedados fazendo sua baderna. Me senti arremessado para dentro de uma cena de Querelle, o filme. Em vez de alguma casa de kebab com mesas no interior onde teria dado pra passar algum tempo, acabei entrando em um lugar que parecia servir coisa um pouco mais interessante, mas no fundo era apenas basicamente mais um kebab mesmo, bem pouco inspirado, apenas num outro formato.

Pelo menos, chegando ao hotel, a boa surpresa de a simpática dona do local já ter preparado meu quarto mesmo sendo ainda tão cedo, e assim eu ter conseguido já deixar as coisas e tomar um banho, em vez de ter que passar praticamente o dia todo com a genitália vencida, coçando de falta de asseio.
Mas o pouco sono cobrou seu preço. Uns 4 quarteirões depois de ter saído pra bater perna, ao tentar comprar um café percebi que havia esquecido minha bolsinha com cartões, passaporte, e etc., e tive que voltar para pegar. E então, bem mais do que 4 quarteirões depois, me dei conta de que havia me esquecido de pegar a máscara também, tarde demais para voltar mais uma vez. No café, que cobrava uns 30 reais por um capuccino, também esqueci de apresentar o cupom com 10% de desconto providenciado pelo hotel. Puto da vida comigo mesmo, depois de já ter pago, passei pela mesa onde o cliente anterior havia deixado uma tortinha comida pela metade. Como forma de diminuir o prejuízo, passei a mão naquilo e, torcendo para a pessoa não ter sangrado HIVs pela sua gengivite, mandei ver aquela torta semi comida. A que profundidade um ser humano consegue descer em homenagem à sua própria mesquinhez!

Na feira da maratona, pequenininha, só amostras de isotônico de presente, e balinha soft. Mas encontrei uma camiseta maneira por 50 coroas, menos do que tinha pago pelo extorsivo café da manhã de um capuccino e um doce.


Mais estrada e verde na caminhada até o distante estádio da maratona, não desagradáveis mas menos cênicos do que os que peguei em algumas cidades da Alemanha. A própria cidade também não me convenceu muito, dando às vezes a impressão de um cenário de parque de diversões, com restaurantes bem caros e convencionais. Acabei almoçando novamente mais um kebab sem muita graça, mas com muito preço. Para tentar contrabalançar as duas más escolhas alimentares recentes, ainda tomei um sorvete depois, saboroso mas custando 40 reais duas bolinhas menores do que as que ficam tentando sair pelos furos da minha calça.

Por fim, sem esperar muita coisa, seguindo a orientação do Chat GPT a respeito de uma apresentação de dança gratuita, já esperando encontrar mais uma qualquer coisa com criancinhas cantando, acabei dando na coisa mais genial até agora nesta viagem! Um puta espetáculo de dança de uma companhia e diretor aparentemente conceituados, encenando com humor o desesperado da condição humana, ou algo assim. Se não fosse pela maratona, Odense já teria valido por isto. Marco Layera, Before the End. Tem o trailer na internet, pra vocês verem o que perderam. 

Comentários

Postagens mais visitadas