02/10 - Kraków


Hoje, para tentar escutar vozes de gente e ter alguma interação interpessoal, encostar o cotovelo no braço da moça ao lado que fosse, agendei não uma, mas duas caminhadas.
A da manhã, gigantesca, com umas 25 pessoas seguindo a gostosível guia que não dava conta de gritar para todo mundo, não deu o menor trabalho para escapar no fim sem pagar. Não fui o único, percebi. Engraçado como perde um pouco a graça fazer molecagem quando não tem ninguém nos fazendo companhia pra gente tentar escandalizar, e quando a gente não tem o monopólio da delinquência....

Mas antes da caminhada em si começar, na aglomeração da praça onde vários grupos se reuniam, aconteceu de novo... Duas mocinhas que hâ pouco devem ter saído da puberdade me cumprimentaram enfaticamente, com aquele sorrisão que, se tivessem uns 10 anos a mais e fossem adeptas do poliamor, significaria inequivocamente "queremos dar pra você!". Meio desconcertado e nada pedófilo, retribuí o sorriso e segui viagem... Mas é absolutamente intrigante, realmente não entendo. Devo ser a cara de algum personagem de algum seriado para adolescentes. Se bem que esta situação aconteceu mais vezes em minha viagem para o Oriente, outro mundo, outros seriados. Não sei se as mulheres mais velhas intuem, ou identificam pelo cheiro, sei lá, a escassez métrica e a insuficiência pressórica da minha piroca e me presenteiam com todo seu mais enfático desprezo, enquanto às menininhas, ainda não ou mal iniciadas nestas coisas das carnes, baixos teores interessam melhor...

Durante a caminhada, mais uma vez eu lá, sozinho, com as mãos no bolso, pensando como desta vez era eu ocupando o papel daquele japonês que chega desacompanhado, com uma câmera fotográfica com uma lente provavelmente mais comprida do que o pinto dele, pendurada no pescoço. E eu sempre pensava comigo mesmo olhando pro cara: puta fracassado, viajando sozinho, este aí não está comendo ninguém.... O mundo, assim como a bolsinha de certa ex-deputada, dá voltas.

De Cracóvia, onde já havia estado há uns 20 anos, nada consegui recordar além da fachada da igreja com a foto do meu amigo João Paulo, aquele onanista. Em Varsóvia, há alguns dias, claro que reconheci o inconfundível palácio da cultura, mas custei um tanto para inseri-lo na bem mais diáfana memória que tinha da geografia da cidade. Isto me deu a esperança, quem sabe se retornar às cidades por onde terei passado sozinho em 3/5 desta viagem, daqui a uns 10 anos, bem acompanhado, não consiga reconstituir a memória delas, me desfazendo destas de estar aqui cumprindo tabela, porque não abandonei a viagem também.


No almoço, enquanto melecava o nariz com a maionese de um cachorro quente enorme, pensei também como, sozinho, tenho comido (e engordado) em dobro. Quando acompanhado, acabamos rachando o prato que, agora por conta, tenho que pedir e consumir sozinho.

Para fechar o dia, o dia não fechou. A caminhada da noite, lá lonjão, cabalmente não aconteceu. Nem suspiro do guia, de outros participantes, simplesmente bati perna até lá e, depois, de volta pro hotel. E, mesmo com este chabu, já são 10 da noite, ainda não tomei banho, não comi as porcarias que comprei pro jantar ...



O hotel aqui é dureza. Um chuveiro para 4 quartos, e cada quarto tem 4 camas, abriga uma família. Quem tomou banho primeiro pegou água quentinha. Soldado que chegou por último no quartel, como eu, vai ter que esperar sua vez de entrar no banheiro, e então tomar banho gelado.


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