04/10 - Katowice
Costumam dar, nos kit de maratona, desde coisa nenhuma até chocolates, energéticos, isotônicos. No desta, condizendo com o oferecido no estádio ontem, um pacote de café e um de macarrão. O café estou levando de volta, nåo é todo dia que se toma café polonês, para o bem ou para o mal.
O macarrão não vai ter jeito...
A última corrida da viagem. Contrariando meu vaticínio de que o quadril continuaria indo ladeira abaixo semana após semana, já penso que provavelmente não serâ mais a última viagem com corridas.
No bonde a caminho da largada, comecei a conversar com um polonês que falava com alguma fluência algo semelhante a inglês, não muito diferente do que faço atualmente. Foram os 20 minutos mais excruciantes da minha vida desde há muito tempo, uma perfeita conversa de surdos, em que um não fazia a menor ideia do que o outro estava falando, e dizia ou respondia o que tinha vontade.
A corrida foi a primeira a fazer uma volta única, sem os vai-e-volta das outras, passando por cidadezinhas menores conurbadas a Katowice, parques e bosques. Bela paisagem. Talvez a maratona mais rápida que eu já corri, desde o início e ao longo de todo o tempo fui sendo ultrapassado. Já começamos correndo rápido, partindo em uma rua larga, e a prova não se esvaziou em momento nenhum, porque foram engenhosos de colocar a meia-maratona largando um bom tempo depois e desembocando no percurso dos 42k, reabastecendo assim o caminho de corredores.
A coxa deu lá umas boas fisgadas, mas nada que tenha me desacelerado importantemente. No final, 4h31, meu melhor tempo nesta viagem, ainda mais significativo porque embaixo de sol forte. Indiscutivelmente desci um degrau no meu perfil de maratonista, a glória de umas 4h15 já não parece mais atingível, mas pelo menos encerrei a temporada razoavelmente por cima.
No bonde a caminho da largada, comecei a conversar com um polonês que falava com alguma fluência algo semelhante a inglês, não muito diferente do que faço atualmente. Foram os 20 minutos mais excruciantes da minha vida desde há muito tempo, uma perfeita conversa de surdos, em que um não fazia a menor ideia do que o outro estava falando, e dizia ou respondia o que tinha vontade.
A corrida foi a primeira a fazer uma volta única, sem os vai-e-volta das outras, passando por cidadezinhas menores conurbadas a Katowice, parques e bosques. Bela paisagem. Talvez a maratona mais rápida que eu já corri, desde o início e ao longo de todo o tempo fui sendo ultrapassado. Já começamos correndo rápido, partindo em uma rua larga, e a prova não se esvaziou em momento nenhum, porque foram engenhosos de colocar a meia-maratona largando um bom tempo depois e desembocando no percurso dos 42k, reabastecendo assim o caminho de corredores.
A coxa deu lá umas boas fisgadas, mas nada que tenha me desacelerado importantemente. No final, 4h31, meu melhor tempo nesta viagem, ainda mais significativo porque embaixo de sol forte. Indiscutivelmente desci um degrau no meu perfil de maratonista, a glória de umas 4h15 já não parece mais atingível, mas pelo menos encerrei a temporada razoavelmente por cima.
Depois, à tarde, em busca de um restaurante fechado e aproveitando pra fazer algum turismo, tentei recuperar a Katowice de minha memória de uns 20 anos atrás. É a segunda vez que termino uma viagem aqui. Sempre há aquele blues de fim de férias, e retomada daquele cotidiano brasileiro amesquinhado de calor, trabalho, e agora dores de cabeça com o emparedamento entre um papai bonzinho e uma irmã escrota na modesta sucessão patrimonial.
Pouco me lembro da primeira vez em que estive aqui, acho que não chegou a um dia inteiro, mas me lembro da tristeza do fim da viagem, em uma relação com uma pessoa que também tinha algo de triste em si. Engraçados os pequenos fragmentos de memória, lembro-me do sorvete que tomamos andando por uma pracinha que nada tinha de memorável, e de termos passado uma noite num hotel meio relíquia dos tempos da guerra fria. Não tenho certeza de que consegui identificá-los, o hotel mais provavelmente, cheguei a entrar e subir para andar pelos corredores de um de seus andares. Está totalmente reformado agora, e o que tinha de característico soviético, muito amenizado.
Para melhor ou pior, tem sido assim pelos vários outros lugares em que passei ou aos quais voltei. As coisas caminham, um contexto que antes existia vai aos poucos se desfazendo. Berlin, por exemplo, para onde não volto faz muito tempo: na minha primeira ou segunda passagem por lá, o muro ainda era um personagem onipresente, o turismo relacionado à era soviética era trivial. Agora, provavelmente resta um pedacinho de muro em algum cantinho da cidade só pra marcar presença, e tudo caminhou adiante, como minha idade, meu desgaste de acetábulo, minha pança e as entradas no couro cabeludo.
Desta vez, a tristeza pelo fim da viagem é um pouco mais confusa. Ainda me ressinto de que tenha terminado, mas acabei passando 3/5 dela sozinho, meio zumbi, num esquema que eu teria preferido não encarar, se tivesse dependido de mim. Ainda nem terminada a viagem, já me pego devaneando com uma próxima, que consiga se contrapor e compensar o que aconteceu nesta.
Pouco me lembro da primeira vez em que estive aqui, acho que não chegou a um dia inteiro, mas me lembro da tristeza do fim da viagem, em uma relação com uma pessoa que também tinha algo de triste em si. Engraçados os pequenos fragmentos de memória, lembro-me do sorvete que tomamos andando por uma pracinha que nada tinha de memorável, e de termos passado uma noite num hotel meio relíquia dos tempos da guerra fria. Não tenho certeza de que consegui identificá-los, o hotel mais provavelmente, cheguei a entrar e subir para andar pelos corredores de um de seus andares. Está totalmente reformado agora, e o que tinha de característico soviético, muito amenizado.
Para melhor ou pior, tem sido assim pelos vários outros lugares em que passei ou aos quais voltei. As coisas caminham, um contexto que antes existia vai aos poucos se desfazendo. Berlin, por exemplo, para onde não volto faz muito tempo: na minha primeira ou segunda passagem por lá, o muro ainda era um personagem onipresente, o turismo relacionado à era soviética era trivial. Agora, provavelmente resta um pedacinho de muro em algum cantinho da cidade só pra marcar presença, e tudo caminhou adiante, como minha idade, meu desgaste de acetábulo, minha pança e as entradas no couro cabeludo.
Desta vez, a tristeza pelo fim da viagem é um pouco mais confusa. Ainda me ressinto de que tenha terminado, mas acabei passando 3/5 dela sozinho, meio zumbi, num esquema que eu teria preferido não encarar, se tivesse dependido de mim. Ainda nem terminada a viagem, já me pego devaneando com uma próxima, que consiga se contrapor e compensar o que aconteceu nesta.
Acabei encontrando outro restaurante aberto, que, apesar de ser quilo, não era barato.
Depois do último boba tea da temporada como sobremesa, simplesmente voltei para o hotel e dei o dia por encerrado, porque precisava acordar às 4:00 da madrugada para tomar o vôo que passei a viagem toda temendo que atrasasse e causasse a tragédia da perda da conexão.
No fim, entre o vazio da solidão e o cagaço, até dormi um pouco, e profundamente, mas acordei espontaneamente achado que já era quase hora, quando ainda passava pouco da meia-noite. Abri o app da Folha, e vi Flávio na frente de Lula no segundo turno, os dois senadores bolsonaristas eleitos, e me dei conta de que o país para o qual estou voltando vai se tornar um grande Rio de Janeiro miliciano. Não consegui mais dormir, e às 3:00 já havia decidido partir. Às 4 e pouco, estava comendo macarrão bosta de lounge no aeroporto.
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