05/10 - Epílogo
As maiores porradas vêm de onde menos se espera, nos pegam com as calças arriadas e indefesos contra aquela dedada do destino. No final, a preocupação que carreguei ao longo de toda a viagem, a de perder o voo de volta por ter comprado uma conexão muito curta pra economizar uns trocados, era bem plausível, mas não aconteceu. O avião saiu com 20 minutos de atraso de Katowice, mas deu tempo de dar uma corrida no aeroporto do Porto e embarcar no próximo sem percalços.
Em compensação, tive a situação bizarra de simplesmente ter tido meu embarque recusado no vôo de saída da Moldávia, e ficado tudo por isto mesmo. Até agora, não tive qualquer resposta às reiteradas mensagens enviadas ao atendimento aos clientes deles. Pura má-fé, pelo visto. Custou-me uma passagem violenta com escala na Turquia, mas a perda da grana terá sido mais facilmente esquecida ao longo do tempo.
E houve, então, a deserção da Ana Paula. Não totalmente inconcebível, mas de não-ocorrência compactuada e então não honrada. As coisas são como são. Neste meu turismo de cidades menores (ou, como no caso de Marrocos, menos interessantes), o convívio com a companhia é mais relevante, porque no lugar em si não há muito a fazer além de caminhar um monte, passar na frente de uma igreja ou duas, e é isso aí. Já viajei um tanto sozinho antes, em meus primórdios, mas era por cidades maiores, ou para passar os dias correndo atrás de sebos de discos, e nem por isto era menos chato Na maior parte da viagem, me vi meio desconcertado, fazendo as coisas a esmo ou mecanicamente, involuntariamente remetido de volta àquela criança meio autista que fui, caminhando sozinho pela rua, chutando pedras, conversando em voz alta comigo mesmo. Enfim, mais sorte na próxima. Não sou vacinado contra este tipo de coisa. Conheço gente que quebrou o pé no primeiro dia de sua viagem de férias, por que o universo me blindaria de ser abandonado? Já viajei com pessoas que não me deixaram na mão, mas cuja permanência ao meu lado fez da viagem um constante inferno.
De resto, nunca tomei tanto refrigerante doce na minha vida, estes países mais periféricos parecem não acolher muito bem o conceito de adoçante. Não tive muita sorte com a programação cultural. Um musical bem decente e uma peça meio desapontadora em Londres, reassistir uma montagem mais humilde da Família Addams em Münster, a bela surpresa da dança em Odense, e o resto, gratuito ou não, foi bem menos memorável.
Nem todos os ditos hotéis eram hotéis de fato, com gente na portaria, toalhas no quarto e depósito de bagagem sem ter que pagar a mais por isto. Mas pelo menos consegui entrar em todos. Poucos dias de chuva, uns 3 ou 4, nenhum deles catastrófico. Em compensação, muito calor, muito sol ardido na cara, pouquíssimas oportunidades para sentir um friozinho, coisa cada vez mais rara neste planeta. E agora de volta a São Paulo, em tempo de pegar a escalada térmica para o próximo interminável verão.
Enfim, vamos lá, continuar envelhecendo, lidando com a velhice de meu velho pai, com a escrotice da filha dele, que, também como se envelhecida em barril de carvalho, vai apurando seu sabor ao longo dos anos. Seguir me precarizando cada vez mais e exercitando com afinco meu raro talento para fazer inimigos e alienar pessoas. Ano que vem, se o quadril permitir, a Europa é uma fonte com ainda bastante a oferecer em termos de maratonas semanais. Se não, me rebaixo ao já há tantos anos adiado roteiro de América Latina. Ou, se até lá, não tiver restado quem queira viajar comigo e permanecer viajando, não vou.
É isto aí.
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